Madalena

Mais do que uma casa, era um casarão. Esbranquiçado, já faltava pintura. Uma demão ao menos para tapar a caliça, o desbotado. Algumas madeiras haviam perdido a frescura doutros tempos. E os alumínios já assomavam. A fealdade viera para ficar. Outros chamariam de pobreza a condizer. Apesar dos proventos do negócio de hospedaria que se juntavam às esmolas e doações sabe-se lá de onde. Uma cruz grandiosa anunciava a virtude. Uma casa de Deus.

Mas agora ali estavam as gaiatas do Colégio, as mais espigadas, as casadoiras, que há sempre um príncipe para sonhar.
- Meninas ao salão, meninas ao salão! – Gritou a Directora, entre palmas, carrancuda.
As vigilantes tinham alertado para a importância do momento. O ar não era de beatitude mas a coisa deveria ser séria. Nesse Domingo de Primavera, dia do Senhor, também Ele seria certamente generoso. Alinhadas, medrosas, expectantes pelo temor do desconhecido suspiravam para que tudo passasse. Verdade, verdadinha que a curiosidade as fervilhava. E aos 15 anos qualquer outro caminho dali para fora seria bem melhor.

Desta vez a blusa verde de gola redonda teria que combinar com a saia escura. Abaixo dos joelhos que a devassa do olhar poderia levantar o pecado, pois há sempre gente capaz de imaginar desvarios. Meia branca e sapato preto a brilhar, depois de cuspido e lustrado. Cabelo limpo e penteado, sem a graça de qualquer gancho ou laço, que este era só para a farda de servir. Em festarolas, para espaventos de vaidades e obediências. Para agradar a passantes peregrinos, esfomeados pelas caminhadas, porque de alegria não seria sinal o laçarote.

Entrou a mãe, uma mulher lá para as bandas de Lisboa, desempoeirada e peituda, de fino buço, com o rapaz quase pela mão. Bem mais velho, pelos trinta, que as moçoilas assustadiças… Retraído, hesitante, mas a tarefa haveria de se cumprir. Se não tinha arte para arranjar mulher no bairro, pela malparecença ou tontaria, haveria de ser mesmo ali no orfanato. O corpo saltava-lhe pela força das hormonas e há que acautelar o futuro. E se a mãe ordenava era porque sabia da poda. Uma mulher sempre haveria de dar jeito. Na cama e na cozinha. Com a Graça do Senhor tudo correria bem. Talvez não o chamassem mais de João Maluco ou João Drogado. Depois de as medir e varrer com o olhar arriscou. Atreveu-se. E disse umas palavras baixinho…

Assim tudo se fechou. Mais uma vez alguém comprara a mercadoria, como de costume. E uns pais dormiriam descansados por tal sorte. Umas rosas e uns chocolates seriam o remédio para desfazer qualquer frieza inicial, conforme o conselho muito sábio da vigilante ao rapaz.
- Foste escolhida, Madalena! Amanhã começas o namoro! – Disse-lhe a secular, numa ordem.
E aí uma força desconhecida projectou a mulher de hábito contra a parede. Pela primeira vez a raiva soltou-se sem freio. O raio da meia freira sentiu os cabelos arrepanhados, as orelhas escarlates de tanto puxar, um dente a soltar-se… Mais uma vez a memória voou pela máquina do tempo. Fogachos, arrepios, constrições. Desde os 2 anos. Dos cintos de fivelas a bater nas carnes, do pão bolorento, da aguada de leite, onde a um litro se acrescentavam mais alguns de água… Das sobras do rancho dos hóspedes. Da alvorada às seis da madrugada, mesmo no pino do Inverno. Da míngua de um qualquer mimo…
Mas desta grave falta de respeito Madalena teria que ser castigada. A sentença deveria ser exemplar também para toda a comunidade do Colégio. Poderia mesmo ser publicitada dentro de muros. Não lá fora, que também ninguém nada revelaria. Nem padre, nem médico, muito distraídos para bagatelas de educação, destas justiçadas que só enrijeceriam o espírito. Portanto, uma sova de cinturão amansaria tal rebeldia de uma catraia que não valia o que comia. Que nem confissão ou comunhão era merecida. E tudo aquilo parecia tanto ou mais estranho quanto aquelas boas alminhas só lhe desejavam o bem de arranjar um marido que a levasse ao altar ali ao lado na Basílica. Assim diziam. Para isso rezavam por aquelas meninas abandonadas. Pai Nosso, Avé Maria, Salvé Rainha. E tantas, tantas lhe deram que quase se finou de dores. Desnuda no leito, embrulhada em papel pardo dos sacos do pão embebidos em vinagre e toalhas de turco com água quente, a desgraçada da ingrata teria para 15 dias. As marcas e os hematomas haveriam de passar com a receita caseira. Conviria que fosse lento demais para não se esquecer de quem mandava. Mas também com a pressa devida porque o rapaz queria insistir. Mesmo por Lisboa, não lhe dava para pensar noutra coisa. Nessa languidez do desejo de a apalpar e entontecer.
- Madalena! Está lá fora o menino João! – Avisou a Directora com ar ameaçador, num dos Domingos seguintes.
Afinal, que conselho ou ordem seria mais preciso? Mas que outro melhor partido poderia ela conseguir? Mais uns açoites até que se iluminasse a cabecinha? Sempre era um homem da cidade que lhe mataria a fome e lhe daria um rancho de filhos. Com uma santinha alumiada, a casa ficaria cheia de alegria. Ou um S. José de azulejos no meio de muitas andorinhas de barro, daquelas de pendurar. Talvez até pudesse ter uma gata e um periquito. Um cão dos grandes, quem sabe. Até seria capaz de lhe sussurrar ao ouvido o grande segredo que uma mãe só pode dizer a uma filha noiva:
- Nunca te negues, nunca te negues!

Mas desta vez a cólera deu-lhe para a palavra. E Madalena contou que estava encantada pelo Emanuel, o trolha das obras do Colégio, o miúdo por quem ninguém dava nada. O desdentado. O rapazola que ia ao telhado sem medo. Que assim desafiava o destino, para espanto dos velhos. O herói que a alvoroçou. O miúdo da gaita-de-beiços que também andava a cantarolar pelos cantos. Do lápis na orelha. Do cordel grosso nas calças a fazer de cinto. E sapatilhas rotas. Afinal, aquele que oferecera uma lanterna para ela ler, às escondidas debaixo da cama, o “Amor de Perdição” quando todas as raparigas já estavam a dormir na camarata. O cúmplice dessa subversão de leitura. O desejado, com quem se encontrava na mata do caminho para a missa. Mão na mão, olhos nos olhos, o coração em rodopio.

O coro da Igreja poderia esperar porque a paixão falara mais alto. Num excelso pacto de amizade, que durara meses, as colegas supriam a sua voz e deixavam aquelas poucas horas para Madalena desfrutar do amor. Sem a traírem, perceberam que também um pouco delas estava lá fora no campo verde. Mas agora, com a meia freira ali especada à espera de um gesto de consentimento, não teve precisão de confessar mais nada quando acariciou o seu ventre, em embalo, e sorriu de alegria, como nunca o fizera. Até a luz da vidraça filtrava outras cores. E também não disse do momento singular quando ciciou ao rapaz, debaixo de uma azinheira, com a alma em festa:
- Estou pura, meu amor!

Uma história de amor, um conto de homenagem a Miguel Torga in “Nós Bichos”
pelos Amigos de Torga…