In Memoriam – Elogio Fúnebre ao Professor Doutor Adriano Vaz Serra

Excelentíssima Família do Professor Doutor Adriano Vaz Serra, Prezada Dª Maria Helena Vaz Serra, Caros Drs. Pedro Vaz Serra, Sofia Vaz Serra, Filipa Vaz Serra, Rita Vaz Serra, Joana Vaz Serra e demais familiares

Excelentíssimo Senhor Diretor da Faculdade de Medicina, também em representação do Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra

Excelentíssimas Autoridades Académicas, Civis e Eclesiásticas

Prezados Colegas, Amigos, Funcionários Académicos, Alunos

Minhas Senhoras e Meus Senhores

A Universidade de Coimbra está triste. A Psiquiatria está de luto. Estamos pesarosos, estamos taciturnos. Numa profunda dolência. Perdemos o nosso querido Professor. O nosso amigo de tantos anos. A nossa fortaleza de tantos ideais. O nosso esteio de tantas utopias de um querer transformar o mundo.

Estas singelas palavras aqui na Capela da Universidade, neste breve afloramento, incorporando seguramente o espírito de muitos outros colegas e amigos, pretendem ser um justíssimo tributo de homenagem ao Professor Doutor Adriano Vaz Serra, um médico psiquiatra que, desde cedo, trilhou um esplendoroso percurso académico. Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1964 e Doutorado em 1972 com as mais elevadas classificações, sempre no patamar da Excelência, cedo foi reconhecido como clínico e investigador de eleição pelo seu brilhantismo. Em 1973 assume a Direção do Serviço de Psiquiatria dos Hospitais da Universidade de Coimbra, após ter trabalhado com o Professor Doutor John Pollitt em Londres, cargo que manteria até 2010, ano da sua Jubilação. Em 1979 ascende naturalmente, por mérito próprio, à Cátedra de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Recordamos, com saudade, não só as suas aulas muito peculiares e as intervenções com um toque de humor britânico mas também a pujança e a robustez do Serviço de Psiquiatria, em todas as suas valências e consultas de subespecialidade, num salutar apelo à diversidade e ao estímulo aos mais novos para poderem sonhar com actividades clínicas de maior gratificação, sem nunca perder de vista a essência do ser-se médico: Cuidar! É este escopo intrínseco que determinou que se colocasse no frontispício do Serviço, em Celas, a placa com os dizeres “Clínica Psiquiátrica”. Eis a grandeza de um gesto de elevação, há quase 50 anos! De alguém que tinha o nobre sentido do acolher pela empatia, na luta contra o preconceito e o estigma em relação ao doente mental.

Ali se formariam médicos psiquiatras, psicólogos e académicos, em viveiro de amado jardineiro, depois colocados do Minho ao Algarve, da Madeira aos Açores. Ali surgiria o modelo inspirador para outras Escolas de Psiquiatria do país, trazendo a modernidade da investigação com a fundamentação da análise estatística mas sem descurar a clínica da proximidade com preocupação humanista.

A aceitação sem sobressaltos pelos pares das suas capacidades mobilizadoras e o seu temperamento sereno, gerador de consensos, levaram o Professor Doutor Adriano Vaz Serra a ocupar diversos cargos de prestígio, exemplificados na Direção do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, na Presidência da Assembleia Geral da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, ou ainda na Presidência da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, já neste século.

O forte prestígio adquirido levou-o a actividades de âmbito internacional, permitindo-nos salientar, de entre as múltiplas referências biográficas, conferências em Lausanne, Salamanca, Toulouse, Budapeste, Praga, Hamburgo. Do mesmo modo, o facto de ter sido Presidente da Associação Europeia de Terapia do Comportamento, no início da década de 90.

O Professor Doutor Adriano Vaz Serra era uma personalidade que se pautava por um comprometimento com a causa pública, com elevados padrões de lealdade e respeitadora dos antigos Mestres da sua Universidade. Nesse sentido, promoveu em 1987 o “Ciclo de Conferências Elysio de Moura” de modo a perpetuar a memória de tão ilustre sábio e benemérito, fundador do primeiro Serviço de Psiquiatria na Região Centro e figura muito querida na cidade de Coimbra.

A vastíssima obra do Professor Doutor Adriano Vaz Serra está dispersa por centenas de trabalhos. Os principais focos de interesse científico residiram nas problemáticas do stress e da ansiedade, para além de estudos sobre as depressões e a construção de escalas de avaliação clínica. Neste domínio revelar-se-ia um autor fecundo, pioneiro em Portugal, com a publicação de diversos instrumentos psicométricos entre os anos 80 e o final do século: “Inventário Clínico de Auto-Conceito” (1987), “Inventário de Resolução de Problemas” (1987), “Inventário de Avaliação Clínica da Depressão” (IACLIDE, 1994), “Escala de Avaliação de uma Personalidade Dependente” (INDEP, 1996) e “23 QVS” (2000), um instrumento de avaliação da vulnerabilidade ao stress. Todas estas ferramentas, facultadas livremente a quem as solicitasse, seriam nucleares a inúmeros trabalhos de investigação, incluindo Teses de Mestrado e de Doutoramento, revelando-se, também, como um legado de grande generosidade. Esta fronteira com o mundo da Psicologia está, aliás, em consonância, com o seu contributo docente nos primórdios do ensino da Psicologia na Universidade de Coimbra, primeiro como Curso Superior, depois como Faculdade, onde leccionaria Psicofisiologia, Psicopatologia e Saúde Mental e Terapêutica do Comportamento. A tal propósito, a Associação dos Psicólogos Portugueses atribuiria o “Prémio APPORT de Reconhecimento” em 1995.

Das suas obras de índole tratadística, destacam-se “O Stress na Vida de Todos os Dias” (1999; reedição 2007), talvez a mais profusamente divulgada, mesmo fora da comunidade científica, e “Distúrbio de Stress Pós Traumático” (2003), compêndios exaustivos sobre as atinentes matérias.

Excelentíssimas Autoridades

Excelentíssimos Colegas, Amigos e demais presentes

Excelentíssima Família, Prezada Dª Maria Helena, Caros Pedro, Sofia, Filipa, Rita, Joana, e demais familiares
Em sintonia com a dor da família, a vossa dor é a nossa dor, o vosso sofrimento é o nosso sofrimento, cumpre-nos solenemente afirmar que o Professor Doutor Adriano Vaz Serra perdurará nas nossas lembranças como alguém que foi também muito estimado por colegas, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, funcionários administrativos, assistentes operacionais, entre outros, e, inevitavelmente, pelos seus doentes. Essas “almas aflitas”, como frequentemente ouvimos dizer, que o procuravam dentro de uma disponibilidade permanente. Afinal, um homem de uma singular integridade e probidade de carácter, de quem vamos ter muitas, mas mesmo muitas saudades. Como “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”. Por fim, em nome de todos os presentes e dos inúmeros amigos que hoje não puderam comparecer, deixo este poema do Cancioneiro de Fernando Pessoa:

A Morte Chega Cedo

A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.

O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.

Até sempre. Repouse em paz, nosso querido Professor. De certeza que muitos de nós saberemos honrar a sua memória e o seu legado de médico, docente, cientista e cidadão.

Tenho dito.

Capela da Universidade de Coimbra, 4 de junho de 2019

Carlos Braz Saraiva