<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Carlos Braz Saraiva - Médico Psiquiatra</title>
	<atom:link href="https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://carlosbrazsaraiva.com</link>
	<description></description>
	<lastBuildDate>Sun, 29 Mar 2026 19:40:15 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
		<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
		<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.8.2</generator>
	<item>
		<title>CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=575</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=575#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 02:32:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=575</guid>
		<description><![CDATA[CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE (I) Quando entrei, lento e enlevado, na Mesquita de Santa Sofia, em 1986, ou na Igreja do Santo Sepulcro, em 1994, ou ainda no Templo Hindu Kapaleeshwarar, em 2001, fui arrebatado por estranhas ondas emocionais de difícil definição. Por segundos, senti-me um viajante por trilhos desconhecidos, quiçá, cósmicos, uma intrigante dimensão. De [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE (I)</strong></p>
<p>Quando entrei, lento e enlevado, na Mesquita de Santa Sofia, em 1986, ou na Igreja do Santo Sepulcro, em 1994, ou ainda no Templo Hindu Kapaleeshwarar, em 2001, fui arrebatado por estranhas ondas emocionais de difícil definição. Por segundos, senti-me um viajante por trilhos desconhecidos, quiçá, cósmicos, uma intrigante dimensão. De certa maneira, poder-se-ia dizer que fiquei “despersonalizado” e “desrealizado”, como consta da psicopatologia clássica. No momento, faltava-me linguagem e racionalidade. Talvez esvoaçante, o corpo. É provável que a mímica se tenha transformado e o coração acelerado. Na verdade, o impacto dos altares e do conjunto de simbologias, dispersas ou aglomeradas, conectados com as memórias e os afetos, ensopavam muito além da síndrome de Stendhal, a chamada embriaguez pelo belo. Isso sim, eu conhecera, esse frémito de basbaque espantado, quando me confrontei com a deslumbrante Vista-do-Rei pela primeira vez, em S. Miguel, Açores. Ao fundo, no silêncio quase absoluto, lá estavam as duas lagoas na cratera abatida do mega-vulcão das Sete Cidades, a verde e a azul. Que paz! Em ecos graduais, aproximando-se do longe ao perto, ouve-se o galope de um cavalo com dois enormes tarros de leite às ilhargas. Eis-nos convidados a penetrar nos misteriosos domínios da consciência e da espiritualidade.</p>
<p>Num ousado exercício de simplificação, a consciência poderá ser valorizada a três níveis: vigília, lucidez e autoconsciência. O primeiro, reporta-se ao que chamamos estar acordado e reage a estímulos; o segundo, corresponde à integração numa experiência de si e do meio ambiente, com conteúdos e contextos inerentes; o terceiro, pressupõe uma avaliação crítica e juízos de ordem superior. Aqui está a ligação às neurociências. O discernimento, a razão e o senso crítico têm a ver com o lobo frontal e o neocórtex do Homo sapiens. Onde está a moral. Os valores. Isso distingue-nos de outros animais. Mas, curiosamente, partilhamos 98% dos genes do macaco e 95% dos genes do rato…</p>
<p>Tal didatismo sinótico, não consegue, todavia, explorar, de forma facilmente entendível, os estádios intermédios como sonambulismos, hipnoses, alucinações do pré e pós-sono, nirvanas, levitações, experiências de quási-morte, alucinações fora do designado campo da consciência, ou mesmo, episódios de transe do xamanismo. Para estas esferas do conhecimento vão ser precisas outras artes. Das situações anómalas do estado de consciência, talvez uma das mais conhecidas, pela sua bizarria e transtorno, para além do favoritismo de uma certa imprensa-cor-de-rosa ou, ainda, de programas sensacionalistas de televisão, deverá ser o caso da dissociação, ou seja, a alteração do estado de consciência provocado por alcalose respiratória, ou hiperventilação. Aquilo a que a sabedoria popular batizou de arfar continuadamente. O indivíduo “transforma-se”. Isto ocorre mais em personalidades hipersensíveis, sofridas e vulneráveis, que passaram por graves traumas na infância. Numa nota marginal, essa mesma capacidade neurofisiológica de dissociação acontece também em curandeiras procuradas por gente que acredita em crendices medievais, por exemplo, para certas situações de luto. Analogamente, o xamanismo, das culturas do Caribe ou do Pacífico Sul, revela como o estado de consciência pode ser alterado por drogas. Veja-se o caso da psilocibina (cogumelos), mescalina (catos), mefedrona (herbicida), ou ácido lisérgico (cravagem do centeio). Passemos agora a uma pergunta “incómoda”. E se o nosso cérebro produzir as suas próprias drogas? Oxitocina e dopamina, são dois bons exemplos, pela vinculação, pelo prazer. Então, o potencial de alteração do estado de consciência poderá estar dentro de nós! Divagando um pouco, mas ainda nos limites desta linha de pensamento, a doença que explica que há pessoas que dizem ter “saído” do corpo e conseguiram “ver-se” no bloco operatório a serem intervencionadas por uma equipa cirúrgica, poderá ser a epilepsia do lobo temporal. Estavam “a sonhar”, mas a convicção e a atribuição cultural são sempre muito mais poderosas do que qualquer outra coisa. Está claro que a meditação profunda (nirvana), com emissão de ondas alfa cerebrais, poderá levar a situações místico-religiosas difíceis de explicar. Estão descritas levitações entre os hindus, que carecem sempre de confirmação fidedigna. Nas experiências de quási-morte há referências a uma sensação agradável de “túnel de luz” e “luta” contra o regresso à vida perante manobras de reanimação. É altamente provável que a anoxia gere algum conforto neurobiológico. Morrer deverá ser pacificador.</p>
<p><strong>CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE (II)</strong></p>
<p>Continuemos com algumas perguntas inevitáveis: a consciência mais próxima dos filósofos não deverá ser diferente do já exposto? E o que tem a consciência a ver com a espiritualidade? Quando o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração nazis, escreveu o celebrado “Man´s Search for Meaning”, referiu que Auschwitz era uma palavra terrífica que significava massacre, gás, crematório. Um milhão de mortos. As suas condições de sobrevivência, perante a crueldade à sua volta, estimularam-no a reflexões sobre a conceção existencial do corpo, da psique e do espírito. O Homem tem uma necessidade profunda de procurar o sentido da vida, tal como respirar: criar, vivenciar, interagir. Isso permite, inovar, crescer e amar. Carimbado com o número 119.104, uma “coisa” às ordens de qualquer despacho ou vozeirão de bota cardada, haveria de ressurgir como pessoa que jamais se sufocaria perante torturas de tições da consciência. Ele acreditava valer a pena partir dos ensinamentos do sofrer para a reabilitação do Homem, mesmo que a sua ciência perversa e malévola ainda se tenha mais mostrado do que é capaz em Hiroshima. Portanto, na mais desvairada tempestade é imprescindível agarrar o otimismo. Perscrutar o ténue raio de luz. Passar do padecimento ao reencontro, da culpa à mudança, do desespero ao renascimento. “Quem tem um <i>porquê </i>para viver, aguenta um qualquer <i>como</i>”, Friedrich Nietzsche (<i>in</i> “Turbulências”, Carlos Braz Saraiva, 1995, Audimprensa, Coimbra).</p>
<p>Quando o Dalai Lama, o líder espiritual tibetano, visitou Portugal pela primeira vez, em 2001, terá respondido a um jovem assombrado pelos fantasmas da inquietação, com esta limpidez: “Comece a dar!” Singela orientação, explícita e sintética, que vai ao encontro do cerne da teia em que se debate o Homem pós-moderno: o triunfo do egoísmo. O sábio conselho proferido pelo budista, obedece precisamente ao estímulo necessário à mudança interior. Quando a pessoa “dá”, ela apercebe-se de que para além de um “Eu” há também um “Outro”. Deste fluxo afetivo, deste “encontro” filosófico entre dois humanos, muito mais do que um mero contacto, recria-se a plateia social que a contempla e usualmente a dissuade a passar a um ato de desespero.</p>
<p>O Homem contemporâneo impregnou-se de egocentrismo e narcisismo. Inchou, majestático e vaidoso. Precisa de palco para evidenciar o seu instinto teatral. Se puder mostrar opulência ou for capa de revista, tanto melhor. Se tiver um séquito de bajuladores ou exibir o relógio de diamantes, que vitória! Ele entende ter direitos, mas não deveres. Percebe os demais como servidores ou instrumentos de utilidade social. Jamais conseguirá sentir as dores dos outros. Nunca estará disponível para calçar sapatos alheios. Caído na perigosa teia da tripla falácia da qual se faz alarde abertamente, de que tem que ser belo, poderoso e infalível, a irradiar uma grandiosa autoestima, sempre na crista da onda, de peito ao vento, apto para todas as ousadias e desafios, custe o que custar, à mínima agrura, esperneia e colapsa. Ninguém o lembrou que se anseia pelo arco-íris terá que se preparar para a chuva. Não surpreenderá, pois, que se imponham as leis do mercado, do consumo e do espetáculo: “Tens que ter pelo ter; se não apareces, não existes”. E sempre, mesmo sempre, na penumbra, ou despudoradamente escancarado, lá está o “Deus Dinheiro!” No Ocidente há uma infantilização inebriante, talvez uma forma distorcida de ludibriar a angústia de existir, vapores esses que podem passar despercebidos. A partir da ilusão primitiva da omnipotência, pressuposto da persistência da criança-rei, o Homem pós-moderno permite-se decretar e definir limites não só da sua integridade, mas também daquilo que interpreta por sua própria dignidade (<i>in</i> “Dispersos e Escondidos”, Carlos Braz Saraiva, 2025, Ed. Damasceno, Coimbra).</p>
<p><strong>CONSCIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE (III)</strong></p>
<p>As sereias que maleficamente nos encantam levam-nos ao endeusamento do prazer imediato, à perpetuação do ideal ilusório do sempre esbelto e do espelho que fala tão só aquilo que queremos ouvir: “<i>Be</i> <i>number</i> <i>one</i>”.  Portanto, eis o culto de um Eu egocêntrico e hedonista, fora da solidariedade coletiva. Então, o que temos hoje? Tudo é efémero, tudo é descartável. Também tudo é dicotómico: ou preto ou branco; ou tudo ou nada. Deixou de haver equilíbrios ou concórdias. A pressa e o tempo voraz esmagam tolerâncias e paciências. O frenesim da competitividade, custe o que custar, projeta-nos o horizonte mais curto, uma cegueira. Não permite o “descentrar-se” com vista à partilha e à troca. A saída do espelho. Esquecemo-nos da magnanimidade do perdão (<i>in</i> “Dispersos e Escondidos”, Carlos Braz Saraiva, 2025, Ed. Damasceno, Coimbra).</p>
<p>Já neste século, David Kissane, um psiquiatra e psico-oncologista australiano, que esteve em Coimbra para conferências e oficinas de trabalho, introduziria o conceito de desmoralização. Trata-se de um constructo (talvez não tão grave como o conceito de desesperança do americano Aaron Beck, da geração anterior), relacionado com um profundo desânimo e perda do sentido da vida. Aquele investigador desenvolveria modelos que incentivam o denominado “crescimento espiritual” através do sofrimento. Refere que a família deveria revelar-se como um importante baluarte na terapia e o médico assumir-se-ia como o equivalente de um “sacerdote moderno”. Dentro dos seus trabalhos, elaboraria uma escala de mensuração do constructo. Compreender-se-á que falar de espiritualidade aproxima-nos do sentimento de pertença e dos vínculos.</p>
<p>Os etólogos há muito que haviam abordado essas temáticas. O austríaco Konrad Lorenz (Prémio Nobel da Medicina, 1973), nas suas observações de animais selvagens no seu “habitat”, em meados do século XX, principalmente gansos e outras aves, designaria por laço aquilo nos une e nos “obriga” à cumplicidade e à cooperação. A bela dança dos grous é um hino ao enamoramento. Daí, a força da neurobiologia.</p>
<p>Convocadas, portanto, as neurociências, desde há décadas que se conhecem a existência de redes neurais do núcleo <i>accumbens</i> e da área tegmento-ventral, com libertação de dopamina e oxitocina, neurotransmissores implicados na motivação e no prazer. Também sabemos hoje o que são “neurónios em espelho” e a sua relevância para a espiritualidade. Descobertos nos anos 90 por investigadores da Universidade de Parma, em macacos Rhesus, rapidamente se concluiu que se aplicam ao Homo sapiens. Mais uma vez certas regiões do nosso fantástico lobo frontal a surpreender-nos. Tal como o lobo parietal. Reportável a células especializadas no compreender as expressões faciais e as emoções. Ou seja, a base neural do estímulo à socialização. Donde, a relação estreita com a empatia e a compaixão. Se este vai-e-vem cerebral está desregulado, ou não funciona mesmo, então, aproximamo-nos do espetro do autismo, da esquizofrenia, ou talvez da sociopatia ou outras doenças mentais. Neste momento, alguns dos organicistas mais obstinados embandeiram em arco: “afinal, já sabemos onde está o amor!” O cérebro pujante a explicar tudo! Arrepia?!</p>
<p>Em notas finais, convirá enfatizar que espiritualidade não quer dizer necessariamente religiosidade. Um ateu pode ser mais espiritual do que um crente. Os índios da Amazónia continuarão a precisar dos seus xamãs e da sua ayahuasca, rica em dimetiltriptamina, de potencial alucinogénio para intermediação com o sobrenatural. Esses povos veem o espiritual nos rios, nas florestas, no vento. Tudo é espiritual.</p>
<p>Hoje sabe-se que a espiritualidade ajuda na saúde mental. Os principais focos residem nas doenças da ansiedade, incluindo as perturbações de stress pós-traumático, nas depressões e na dor crónica, designadamente em oncologia. A espiritualidade também se mostra uma ferramenta de aceitação do envelhecimento. O Papa Francisco referia-se à dor dos pobres e dos excluídos como fontes de inspiração para a caridade, a compaixão e a espiritualidade. Ou seja, poderosos lampejos de sabedoria sobre a condição humana.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(<i>in</i> “Diário As Beiras”, 13.02.2026)</p>
<p>Carlos Braz Saraiva</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=575</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>DO CASO DA BALEIA AZUL AO DESAFIO DO PARACETAMOL</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=573</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=573#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 07 Mar 2026 02:30:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=573</guid>
		<description><![CDATA[As epidemias de suicídio, pelo potencial de mimetismo, remontam há séculos. Talvez uma das mais antigas tenha sido relatada por Plutarco, no século I, na “Moralia, Mulierum Virtutes”, em relação às jovens de Mileto da Grécia Antiga: “Todas foram possuídas por um desejo de morrer e uma vontade furiosa de se enforcar. Palavras e lágrimas [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>As epidemias de suicídio, pelo potencial de mimetismo, remontam há séculos. Talvez uma das mais antigas tenha sido relatada por Plutarco, no século I, na “Moralia, Mulierum Virtutes”, em relação às jovens de Mileto da Grécia Antiga: “Todas foram possuídas por um desejo de morrer e uma vontade furiosa de se enforcar. Palavras e lágrimas não adiantavam; elas enforcavam-se”. Para acabar de vez com essa tragédia contagiosa foi decretado que o cadáver seria exposto nu na Ágora, isto é, no mercado. O medo da desonra superou o desejo de morte.</p>
<p>Já neste século, em 2013, alguns adolescentes foram manipulados pelo dito “jogo” da baleia azul, temática que tive ocasião de abordar, em Lisboa, no VII Congresso de Patologia Dual, em 2017. Tudo apontava para que as origens provinham da Rússia, alegadamente polarizadas em Filipp Budeykin, um lunático que “queria limpar a sociedade”, prenúncio de uma ideologia fanática de supremacia e crueldade, isto apenas para simplificar. A partir do momento em que um jovem curioso, inquieto e fragilizado, entrava naquele labirinto, irrompiam dezenas de tarefas a superar, por etapas, controladas pelo “curador” ou “administrador”, desde exploração à volta do número 3 e suas crendices, desenhos na pele, automutilações, até ao suicídio na quinquagésima paragem. Internado numa unidade psiquiátrica, o russo seria considerado imputável a nível da psiquiatria forense. Ou seja, diagnosticado supostamente por um quadro de distúrbio da personalidade, um não louco, foi considerado responsável do ponto de vista judicial. A denominação desse condicionamento e perversão, portanto, jamais um jogo (sendo o título um terrível engodo de consequências perigosas), baseava-se no mito do suicídio de baleias, algumas de 160 toneladas e 30 metros de comprimento, encalhadas e agónicas em praias. A resposta científica mais plausível é de que tais mamíferos, gigantes infaustos, foram afetados nos sensores biológicos de geolocalização, não estando os humanos isentos desse transtorno de navegação, exemplificado no caso de ondas emitidas pelos submarinos. Portanto, as baleias não se suicidam em massa.</p>
<p>Não foi ainda há muitos anos que <i>Google</i> <i>hits</i> como “How to Kill Yourself” ou “Suicide Methods” registavam o dobro ou o quadrúpulo de “Suicide Prevention”, respetivamente!  Um alerta para as políticas de saúde mental. Esta badalada competição do paracetamol, desde 2023, levantou novos demónios que continuam a minar a sociedade. Mais uma vez, a força da maléfica manipulação cognitiva coloca os jovens numa ardilosa coragem, transformando comportamentos de risco em espetáculo com direito a imagens. Tudo transitório e pretensamente grandioso! Estamos a falar de comportamentos no “fio da navalha”. Nada é inócuo. Nada é pueril. Serem incentivados a tomar sobredosagens de paracetamol (conhecido medicamento para as síndromes febris e dores) a ver quem aguenta mais até às náuseas, vómitos, icterícia, hipersónia e falência hepática, com eventual transplante hepático ou mesmo morte, não é um exercício de intrepidez, mas sim o risco real de um possível não retorno. A finitude. É necessário e imperativo que alguém grite de que só os vivos podem jogar e brincar.</p>
<p>Mas, afinal, quem são estes jovens fascinados pelo abismo? Há abraços nessas famílias? Ou tão só hipercriticismo e hostilidade? Olham-se nos olhos? Serão equivalentes suicidas, como os condutores de motocíclicos em contramão na autoestrada? Que linguagens comunicacionais nos estão a mostrar? E a comunidade está preparada para compreender e encontrar alternativas e apoios inteligentes? Para alguns, a apropriação do corpo é uma grande vitória. “A minha pele é a minha tela”, quantas vezes ouvi esta frase! A perda do sentimento de pertença (a algo ou alguém) e a incapacidade para agarrar uma causa que entusiasme são frequentes nestes jovens desconectados e entediados com a vida. Já foi dito e redito que, a nível da saúde mental, uma sociedade civilizada terá que se focar prioritariamente na prevenção primária. Ir à fonte das “moratórias desviantes” dos adolescentes. Às chamadas famílias disfuncionais, um eufemismo para não chamar de doentes. Ao fundo dos porquês.</p>
<p>Quando há 25 anos disse num congresso no auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra que às crianças deveriam ser oferecidos um lápis, para criar, uma bola, para brincar, um palco, para fazer de conta, e um cão para cuidar, alguns amigos sorriram candidamente e chamaram-me de utópico… ou talvez outras adjetivações! Pois… Certos países nórdicos estão a voltar “ao giz e à lousa”. Tal não será por acaso. Os afetos têm que ser retocados. É obrigatório estarmos mais atentos. O Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (2013) já contempla orientações para lidar com tais comportamentos de risco, de modo a tentar melhorar a autoestima, esbater a impulsividade, lutar contra o isolamento e persistir na inclusão social. A recente Linha 1411 é também uma âncora de apoio a jovens desesperados, tal como outros Telefones SOS há muito existentes no nosso país, com o generoso contributo de voluntários que seguem princípios internacionais.</p>
<p>“Rafting” no rio Paiva, escalada e “rappel” na serra da Lousã ou voo de parapente em Linhares da Beira, não seriam muito mais estimulantes?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Carlos Braz Saraiva</p>
<p>In “Público” on line 06.03.2026</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=573</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Com o Vadiagens do Colibri</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=555</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=555#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 22:02:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Galeria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=555</guid>
		<description><![CDATA[]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=555</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Em 2024</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=553</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=553#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 22:02:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Galeria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=553</guid>
		<description><![CDATA[]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=553</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Congresso Luso</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=551</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=551#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 22:01:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Galeria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=551</guid>
		<description><![CDATA[]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=551</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Jardim Botânico</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=548</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=548#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 22:00:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Galeria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=548</guid>
		<description><![CDATA[]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=548</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Com Pio Abreu</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=546</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=546#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 05 Jan 2026 21:59:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Galeria]]></category>

		<guid isPermaLink="false">https://carlosbrazsaraiva.com/?p=546</guid>
		<description><![CDATA[]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=546</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>HOMENAGEM AO PROF. PIO ABREU (EXCERTOS)</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=520</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=520#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 22 Dec 2025 13:31:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://carlosbrazsaraiva.com/?p=520</guid>
		<description><![CDATA[O Prof. Pio Abreu foi inequivocamente um dos mais ilustres psiquiatras da sua geração. Médico, psiquiatra, cientista, filósofo, humanista, escritor. Em boa hora, em 2023, foi homenageado no XVII Congresso Nacional de Psiquiatria, em Albufeira (…) Juntamente com o Prof. João Relvas e o Dr. Horácio Firmino, fiz um depoimento audiovisual sobre o homenageado, excertos [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">O Prof. Pio Abreu foi inequivocamente um dos mais ilustres psiquiatras da sua geração. Médico, psiquiatra, cientista, filósofo, humanista, escritor. Em boa hora, em 2023, foi homenageado no XVII Congresso Nacional de Psiquiatria, em Albufeira (…) Juntamente com o Prof. João Relvas e o Dr. Horácio Firmino, fiz um depoimento audiovisual sobre o homenageado, excertos que seriam editados e visualizados nessa mesma cerimónia. Em 2024 decidimos (eu e o Prof. Joaquim Cerejeira) convidá-lo para o prefácio da 2ª edição da obra “Psiquiatria Fundamental” lançada em Castelo de Vide, tendo o Prof. Pio Abreu estado presente. A sua intervenção ultrapassou o teor do prefácio e revestiu-se de uma abrangência filosófica sobre o que é ser-se psiquiatra no século XXI.</p>
<p dir="ltr">Nascido em Santarém em 1944, no ano da invasão da Normandia, José Luís Pio Abreu faleceria em Coimbra aos 18 de junho de 2025. Contava 81 anos.</p>
<p dir="ltr">Jovem estudante ribatejano, alojar-se-ia na República “Palácio da Loucura”, na Rua Antero de Quental, um bom prenúncio do que estava para vir e onde fortaleceria laços de amizade e cumplicidade com muitos companheiros por longos anos.</p>
<p dir="ltr"> Foi um dos protagonistas da crise académica de 1969, de entre os estudantes que pugnaram pela reintegração de professores e pela democratização do ensino superior. Sinalizado pela polícia política e castigado pela ditadura de Marcelo Caetano foi compulsivamente incorporado no exército e enviado para a guerra colonial na Guiné (…)</p>
<p dir="ltr">Regressado a Coimbra, faria os seus estudos psiquiátricos, o seu doutoramento em 1984 sobre Coreia de Huntington e a agregação em 1996 no domínio da Ansiedade e Dissociações. Em 2014, após a sua aposentação, tornar-se-ia membro do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, um sonho antigo.</p>
<p dir="ltr">O Prof. Pio Abreu tinha um genuíno sentido de escola, aliás, muito apreciado. As suas áreas de interesse eram muito vastas. Iam da psicopatologia às psicoterapias, da comunicação em medicina à filosofia, até à neurofisiologia da espiritualidade… Nos últimos anos regressou à hipnoterapia e ficaria entusiasmado com a dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares.</p>
<p dir="ltr">Dos livros publicados, destacam-se: “Introdução à Psicopatologia Compreensiva” e “Elementos de Psicopatologia Explicativa”, duas obras complementares, maduramente pensadas e que lhe deram grande satisfação, com a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian;  “O Modelo do Psicodrama Moreniano”, livro prático a partir da formação terapêutica realizada com o psicodramatista Alfredo Soeiro nos anos 80 e 90 (um português nascido em Castanheira de Pera, emigrado em criança para o Brasil); “Comunicação e Medicina”, colmatando uma grave e estranha lacuna do ensino médico em Portugal; “O Tempo Aprisionado”, ensaios não espiritualistas sobre o espírito humano, uma incursão a um dos seus filósofos de eleição, Henri Bergson, tal como Karl Jaspers e Karl Popper; o seu famoso “Como Tornar-se Doente Mental”, inicialmente publicado em Coimbra pela Quarteto; “Quem nos Faz como Somos”, uma viagem pela genética, signos e identidade; “O Bailado da Alma”, tido como uma dança  dinâmica em relação com o tempo; “Estranho Quotidiano”, coletânea de crónicas na imprensa; “A Queda dos Machos”, onde dá voz aos homens enquanto escreve às  mulheres e “Pequena História da Psiquiatria”, obra escrita tirando partido da clausura  imposta pelo COVID-19. Algumas destas obras tiveram divulgação no Brasil, Espanha e Itália (…)</p>
<p dir="ltr">Uma das minhas memórias de espanto de 1979, quando iniciei o internato num Pavilhão do Campus Hospitalar de Celas, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, felizmente rebatizado de Clínica Psiquiátrica pelo Prof. Adriano Vaz Serra, foi conhecer o minúsculo gabinete (talvez 4 m2) onde o nosso homenageado trabalhava, no sótão, mal cabia uma pequena mesa e uma cadeira, com um postigo que dava para uma sala de aula, num improvisado mezanino (…) Ou seja, a um dos mais brilhantes psiquiatras que Portugal conheceu, tal bastava. Esse cantinho. A humildade dos sábios.</p>
<p dir="ltr">Recordo as discussões acaloradas de casos clínicos de doentes internados, demasiado tensas para colegas mais sensíveis, mas jamais jocosas ou satíricas, e que acabavam na tertúlia do café do bar do hospital, ao ar livre, já num clima distendido. Era um Mestre que muito estimávamos, porque sabíamos que a diversidade só enriquece o saber. Um psiquiatra que vai ao cinema, ao teatro, que sabe de música e de pintura, não está refém de nenhum modelo, muito menos do modelo biológico. Um homem de largos horizontes.</p>
<p dir="ltr">A montagem física do cenário para as terapias por psicodrama no serviço foi uma iniciativa louvável para o tempo. Com palco, bancos, almofadas e sistema de luzes. Uma certa intrepidez. Aliás, a sua ousadia nem sempre era bem entendida. Como uma vez, num contundente comentário no Teatro das Letras nos anos 80 perante uma centena de assistentes, no final da peça.</p>
<p dir="ltr">Teve ainda diversas intervenções políticas, mas sempre com o nobre intuito de solidariedade social. Poderá dizer-se, com toda a propriedade, que a sua consciência cívica e de cidadania foi exercida em plenitude. Os exemplos são muitos e públicos, nos jornais, na TV e nos livros (…) Assisti a muitos episódios singulares vivenciados pelo Prof. Pio Abreu. Desde as idas de bicicleta para o hospital (algo incomum para o tempo), tocar flauta com um paciente esquizofrénico, aluno de Medicina, elaborar ilustrações e desenhos para as suas aulas no tempo dos acetatos, os passeios inspiradores com o cão, o me ter chamado ao gabinete para observar movimentos coreicos de um paciente com Demência de Huntington ou hiperventilações com dissociações (&#8230;) Neste ponto há algo inesquecível. Ainda hoje recordo o nome da paciente. O Prof. Pio Abreu pediu-me para provocar uma dissociação, através da hiperventilação continuada, a uma doente internada e eis senão quando irrompeu um ataque epiléptico! Durante uns segundos fiquei atarantado. A histeroepilepsia existia! O grande tratadista espanhol Alonso Fernandèz tinha razão.</p>
<p dir="ltr">Quando comecei a substituir o Prof. Pio Abreu (inicialmente na Universidade dos Açores, ainda antes de assumir a regência da Cadeira de Psiquiatria), apercebi-me de quanto ele era admirado não só pelos alunos do ensino superior mas também pela Escola Secundária das Laranjeiras onde tinha proferido algumas conferências (…)</p>
<p dir="ltr">Uma vez sobreviveu a uma tentativa de esfaqueamento com uma faca de mato no tórax por um doente esquizofrénico devido à intervenção rápida e corajosa do enfermeiro João Raúl, um antigo jogador de basquetebol de quase 2 metros de altura. Eu vi.</p>
<p dir="ltr">Tive o privilégio de ler e criticar, a seu pedido, o texto do “best-seller” antes da entrega ao editor: “Como Tornar-se Doente Mental” (26ª Edição, em 2021, Prémio Città delle Rose 2006). Recordo-me bem do que lhe disse na altura: “A ideia é muito interessante, as pessoas vão entusiasmar-se, ler tudo de uma assentada, mas o último capítulo fecha o livro com chave de ouro, pois que teria que haver mesmo algo assim: “Como Não Ser Doente Mental”. Aliás, é precisamente o mesmo que penso vinte e cinco anos depois.</p>
<p dir="ltr">Em boa verdade se diga que a Faculdade de Medicina deixou-o sair discretamente. Não percebeu ou não quis perceber quem era esse pensador livre, uma figura maior da nossa psiquiatria. Um dos nossos melhores (…)</p>
<p dir="ltr">O reconhecimento pela intensa e empenhada colaboração com a Ordem dos Médicos foi premiada com a Ordem de Mérito em 2022 (…)</p>
<p dir="ltr">O Prof. Pio Abreu era um psiquiatra eclético: “Compreender a mente humana é um desafio científico, mas também um compromisso ético e espiritual” … “O psiquiatra deve ter conhecimento de neurologia, fisiologia, endocrinologia, mas também de antropologia e sociologia” (…)</p>
<p dir="ltr">Leiria, 16 de setembro de 2025</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=520</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>PSIQUIATRIA EXCESSIVA</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=518</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=518#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 22 Dec 2025 13:30:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://carlosbrazsaraiva.com/?p=518</guid>
		<description><![CDATA[“Os Inventores de Doenças” de Jorg Blech (Edição portuguesa, Porto: Ambar, 2006) é um livro desafiante e corajoso que aborda certos trilhos de investigações científicas, nem sempre devidamente replicadas por outras escolas. O surgimento de novas visões concetuais é, então, admissível. Ou seja, poderão surgir na nomenclatura doenças pretensamente “escondidas” ou “menorizadas” que por uma [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p dir="ltr">“Os Inventores de Doenças” de Jorg Blech (Edição portuguesa, Porto: Ambar, 2006) é um livro desafiante e corajoso que aborda certos trilhos de investigações científicas, nem sempre devidamente replicadas por outras escolas. O surgimento de novas visões concetuais é, então, admissível. Ou seja, poderão surgir na nomenclatura doenças pretensamente “escondidas” ou “menorizadas” que por uma qualquer razão emergiram para a luz do dia. No tempo de Napoleão Bonaparte, os psiquiatras precisavam de 10 diagnósticos para englobar todas as formas de loucura. Hoje em dia, no século XXI, as codificações internacionais (ICD-11 e DSM-5-TR), que incluem todas as variantes psiquiátricas, são mais de 300. O leque muito se abriu. A pergunta parece óbvia: mas será mesmo tudo isto sinónimo de insanidade mental?</p>
<p dir="ltr">Uma formiga vista à lupa parece um animal fantasmagórico de um filme de terror de Hollywood. Trata-se de uma figura de maximização. Uma distorção cognitiva a partir de um estímulo visual. O cérebro foi enganado. Todavia, jamais poderemos ignorar que a medida do medo ou do desespero de cada um, só é possível ser mensurada pelo protagonista desse sofrimento. E isso tem que ser respeitado. O Homem pós-moderno, das últimas décadas, lida mal com estes “espinhos” da rosa. Só quer ver e cheirar as pétalas. Esqueceu que o arco-íris só vem depois da chuva. Que depois da noite, virá sempre o dia. Quando aquele pai que foi a correr à loja de animais comprar um cão igual ao que fora atropelado para que o filho não desse conta do que é a morte, iludiu a natureza do que é incontornável. É preciso chorar. A dor ensina e liberta. Há o risco desse rapaz estar embebido numa perigosa armadilha: todos temos que ser belos, perfeitos e poderosos. Não obstante, vai esmurrar os joelhos a andar de bicicleta e tropeçar nas pedrinhas da calçada. Que tripla falácia!</p>
<p dir="ltr">De facto, a ansiedade, o luto, a tristeza, são essenciais à construção da identidade e da personalidade. São algumas das traves-mestres do desenvolvimento. Por vezes, vemos por aí estudos que apontam para números inquietantes de quadros ansiosos e depressivos, inclusive sobre eventual ideação suicida, nos jovens. Um catastrofismo errado, até porque tais investigações não passariam num crivo apertado de análise das metodologias usadas. Há, portanto, o risco de se retirarem conclusões precipitadas. Não vão ao fundo dos problemas. Simplificando: ver doenças onde há apenas estados emocionais passageiros. Claro que convirá explicar que de entre a descrição e a listagem das patologias da ansiedade algumas são meramente situacionais, e não incapacitantes, exemplificadas em certo tipo de fobias simples (“medo de alturas, ratos ou aranhas”), muito aquém, portanto, da severa agorafobia (“medo de sair à rua ou de ir ao supermercado”) acompanhada de ataques de pânico recorrentes (“medo súbito de morrer de paragem cardíaca”).  Esta dupla associação, sim, é comum. Se grave, poderá ser preocupante. Uma patologia, não um excesso.</p>
<p dir="ltr">No caso da ansiedade generalizada não é propriamente um quadro clínico constante e perigoso e surge entrelaçada com facetas temperamentais da personalidade e os contextos de vida. Aqui ocorrem adversidades, mas também resiliências. O comum dos mortais supera tais obstáculos.</p>
<p dir="ltr">É, ainda, muito comum a confusão entre sintomas depressivos e doença depressiva. Para esta última, há critérios a ter em conta, aliados ao fator tempo e ao bom senso clínico. Todos falam dos sintomas, até há escalas com pontuações, mas só excecionalmente se diz que o Homem tem duas semanas para se “levantar” ou “lamber as feridas”. Felizmente é o que acontece com grande parte dessas populações sofridas que utilizam as suas próprias ferramentas psicológicas de modo a superar contrariedades inerentes aos acontecimentos de vida.</p>
<p dir="ltr">Quando em outubro último, proferi no Lions Clube de Coimbra a palestra “Saúde Mental: conceitos e controvérsias”, evidenciei o potencial, absurdamente minimizado, da prevenção primária. É nas famílias com filhos menores onde grassa a fome, o alcoolismo, a exclusão, a doença, que uma sociedade civilizada deverá intervir. A solidariedade orgânica e a consciência cívica deverão ser pilares de um país. Caso contrário, fica ferida de morte a definição de saúde mental da Organização Mundial de Saúde: “bem-estar emocional, psicológico e social em que a pessoa sabe lidar com o stress do quotidiano, tem trabalho digno, casa, momentos de lazer, e é útil à comunidade”.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=518</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>TRISTEZA NÃO É DEPRESSÃO, ACONTECIMENTOS DE VIDA NÃO SÃO TRAUMAS</title>
		<link>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=511</link>
		<comments>https://carlosbrazsaraiva.com/?p=511#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 27 Oct 2024 14:32:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[mnlsrv]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://carlosbrazsaraiva.com/?p=511</guid>
		<description><![CDATA[Nos últimos tempos têm vindo a lume diferentes trabalhos de investigação em Portugal reportados a jovens que apontam para números inquietantes de quadros ansiosos e depressivos, inclusive sobre eventual ideação suicida. Um esboço de um catastrofismo imprudente e desfocado. Convirá explanar que de entre a descrição e a listagem das patologias da ansiedade algumas são [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos tempos têm vindo a lume diferentes trabalhos de investigação em Portugal reportados a jovens que apontam para números inquietantes de quadros ansiosos e depressivos, inclusive sobre eventual ideação suicida. Um esboço de um catastrofismo imprudente e desfocado.</p>
<p>Convirá explanar que de entre a descrição e a listagem das patologias da ansiedade algumas são meramente situacionais e não incapacitantes, exemplificadas em certo tipo de fobias simples, muito aquém, portanto, da severa agorafobia (“medo de sair à rua”) acompanhada de ataques de pânico recorrentes (“medo súbito de morrer”). Esta comorbilidade, sim, é preocupante. Por outro lado, a ansiedade dita generalizada não é um quadro clínico constante e surge entrelaçada com facetas temperamentais da personalidade e os contextos de vida, onde naturalmente ocorrem adversidades, mas também resiliências. O comum dos mortais supera tais obstáculos e exerce quer o seu mister quer a interação social e familiar. “Não há rosas sem espinhos”. Alguns tomarão ansiolíticos ou antidepressivos, quiçá desnecessariamente. Como lenitivo, sonífero, talismã ou outra qualquer função. A iliteracia em saúde mental e o sistema de crenças são uma poderosa díade. Todos conhecemos o conluio entre o comprimido da noite e o café duplo matinal…</p>
<p>Na outra vertente, as patologias do humor são intrigantes na sua apresentação, ou seja, a patoplastia, nem sempre fácil de perceber e balizar.  Camaleónicas, frequentemente transitórias, oscilantes ou cíclicas. Podem assim ser apelidadas, numa visão simplificada. O consenso dentro do Estado da Arte, emanado de especialistas clínicos no terreno com larga experiência, de acordo com a nomenclatura das classificações internacionais das perturbações psiquiátricas (ICD-11 e DSM-5-TR), torna ainda mais complexa qualquer assunção categórica de doença, designadamente quando as conclusões se remetem apenas à psicometria, vulgo escalas de depressão. Na verdade, os testes psicométricos não só não fazem diagnósticos como raramente obedecem a observações longitudinais periódicas da mesma pessoa. De sublinhar ainda que é muito comum a confusão entre sintomas depressivos e doença depressiva. Para esta última, há critérios a ter em conta, aliados ao fator tempo (cronos) e ao bom senso. Precisamente por isso, eventuais erros metodológicos de trabalhos científicos sugerem, logo à partida, um viés nas conclusões finais.</p>
<p>A mágoa ou a tristeza dos humanos esbate-se quase sempre ao fim de uma ou duas semanas. Felizmente é o que acontece com grande parte dessas populações sofridas que utilizam as suas próprias ferramentas psicológicas de modo a superar contrariedades inerentes aos acontecimentos de vida. Por vezes, além do stresse do dia-a-dia. “Lamber as feridas”. Chama-se ajustamento ou adaptação. Tem outra nosografia. E não é depressão.</p>
<p>Não obstante, jamais poderemos ignorar que os respondentes de testes, usualmente tipo <i>likert</i>, quando se sentem sombrios ou angustiados, possam carecer de que a sua dor psicológica seja legitimada e o seu discurso de turbulências emocionais validado. Daí poderem potenciar os seus queixumes. Uma hipérbole. Uma lupa. Faz parte da natureza humana e da comunicação para fora, para o mundo. As chagas de cada um são sua pertença. Uns mostram mais do que outros. É mesmo assim. Porém, há que contextualizar, como agora se diz. Ousadia dos testes: Ler “o dito” para alcançar “o não dito”? Compreender, sim, explicar, também. Tarefa difícil, mas não precisamos de alarmismos.</p>
<p>Carlos Braz Saraiva</p>
<p>In Público “Online” 29 setembro 2024</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>https://carlosbrazsaraiva.com/?feed=rss2&#038;p=511</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
