O RELÓGIO CRAVEJADO DE DIAMANTES E A PULSEIRA DE OURO MACIÇO

(Diálogos ao pôr-do-sol tropical)

O relógio cravejado de diamantes (RCD) – Ufa! Finalmente consigo relaxar um pouco. Já não tenho que estar sempre com a preocupação de me mostrar abaixo do punho da camisa e a ser devassado pelos olhares dos piolhosos…

A pulseira de ouro maciço (POM) – Isso chama-se inveja. As pessoas adorariam ser como tu. Reluzente e grandioso. Ainda por cima um exemplar único daquela casa famosa relojoeira de Genebra. Custou uns trocos do muito suor e canseiras…

RCD – Sim, sim, uma satisfação imensa. Saber que sou um exclusivo universal.

POM – Sinto-te ufano! Pronto, está bem! A vaidade é para se mostrar.

RCD – Mas hoje não sei bem porquê, talvez pelo excesso de calor e humidade neste maravilhoso pôr-do-sol junto ao mar, lembrei-me lá do torrão, muito mais ameno. Aqui às vezes mal respiro. E os chatos dos mosquitos e o suor pegajoso… Estes rapazes bem abanam os leques para ventilar, mas não chega.

POM – Tu andas sempre a olhar para os ponteiros. Não fiques nostálgico. Uma hora aqui continua a ter 60 minutos.

RCD – Sim, é certo. Mas tenho saudades dos nossos amigos festeiros e sempre prestáveis para acudir às tremideiras e enxaquecas, não àquela coisa chata das hemorróidas, que são doenças de desgraçadinhos… Ui! Até me arrepia falar disto.

POM – Não sejas jocoso demais. Bem sei que és uma peça única da relojoaria suíça mas um pingo de decoro não ofuscaria nem o teu brilho nem a tua mania das grandezas.

RCD – Afinal, não percebes que ser vaidoso só pelo talento, que uns idiotas e pindéricos chamaram de sibilino, não chega para a fama futura? Tem que ser supervigoroso e atrair as luzes. E isso põe-me na estratosfera. Voo…

POM – Ah, então será que já estás a pensar num busto numa Praça Central?

RCD – Modéstia à parte, sonho com uma estátua colossal em cima de um majestoso plinto. Coisa de ser admirada. Mas não divulgues nada. Vai ser de arromba.

POM – E quanto aos “recuerdos ou souvenirs” para aquela malta simpática lá da parvónia?

RCD – Temos que ser desconcertantes pela nossa inteligência superior. Depois do espanto, virá o riso. Se os fizermos gargalhar isso será fabulástico.

POM – Fabulástico?! Agora também és inventor de palavras?

RCD – Esse é um segredo bem guardado. Quem impõe palavras transforma a sociedade. Olha, os Srs. Gillete, Ford, Citroen e tantos outros. É um dos maiores poderes, tal como cunhar moeda. Lá bem sabiam os Imperadores em Roma dominar o mundo. Não basta mudar os paramentos do trono.

POM – As coisas que tu sabes…

RCD – É um dom, eu sei. Um QI à Einstein, daqueles de rebentar a escala.

POM – Estou verdadeiramente espantado. A tua cabecinha nunca está parada. O que andas por aí a congeminar, então para as tais prendas?

RCD – Olha, estive a pensar. Enviamos um contentor cheio de cocos.

POM – Cocos?!

RCD – Sim. Dá para todos. E vai com milhares de palhinhas.

POM – Palhinhas?!

RCD – Sim, claro. Servem para chupar.

(Fim do pôr-do-sol; recolhem-se; amanhã virá um novo dia e voltarão a reluzir)