A GRAVATA DE SEDA E O SAPATO DE BICO: DIÁLOGOS NUM SÓ ACTO

GRAVATA DE SEDA (GS): “Ufa! Hoje estou acalorada de todo. Apetece-me esvoaçar por aí…”

SAPATO DE BICO (SB): “Já reparei. Mas continuas distinta, deslumbrante e radiosa”.

GS: “Nem sei bem porquê, pareço mais liberta, sinto-me mais traquina…”

SB: “Isso quer dizer que já não tens saudades da montra da Av. Foch de Paris?”.

GS: “Não. Adaptei-me bem. Aliás, foi um enriquecimento. O mar azul e a brisa junto à serra seduziu-me. E o verde dos campos de golfe… Que tranquilidade…”.

SB: “Mas se estás com os calores porque não te abanas com o leque de Genebra. O de incrustações de madrepérola. Sempre refrescavas…”.

GS: “Boa ideia. És um querido. Sempre preocupado comigo. Não vais sem resposta. Olha, tu hoje estás muito bonito, lustrado e polido. Desconfio que até brilhas no escuro do salão no meio de tantas obras de arte. A condizer…”.

SB: “E achas que se veria o bico?”.

GS: “Há coisas que se adivinham. Não precisam de ser exibidas. É a intuição. Tu és o mais afiado. Toda a gente sabe disso”.

SB: “Acreditas mesmo que sou assim tão poderoso?”

GS: “Sim, claro. Fazes-me lembrar a proa de certos galeões dos piratas que abalroavam os navios…”

SB: “O quê?! Como as grandes naus que penetravam nas entranhas dos barcos inimigos?”

GS: “Esta metáfora foi atrevida demais. Pronto, reconheço. Na verdade, tu és mais subtil. Um cavalheiro”.

SB: “Não me faças rir. Sozinho, às vezes, só escarafuncho. Preciso de outras forças, outros adereços. Por isso tu és uma aliada muito valiosa. Uma jóia”.

GS: “Serás sempre um incorrigível sedutor…”

SB: “Estou a ser sincero. Tu moves montanhas. Enfeitiças. O caviar e o champagne ao pé de ti são trivialidades despercebidas…”.

GS: “A sério?! Referes-te ao cocktail do pôr-do-sol naquele iate maravilhoso do Lago de Como?”.

SB: “Aí está um bom exemplo. Estiveste sublime. Perante a irritante nódoa, deixaste-a secar. Paciência que deu frutos. Ninguém topou nada e continuaste vaidosa, como sempre…”.

GS: “Sim. Lembro-me bem. Ainda ouvi que era digna se não de um marquês, ao menos de um visconde. E eu que sonhei com um duque!”.

SB: “Convém não esquecer que dessa vez tu ostentavas um majestático broche de ouro cravejado de diamantes de África”.

GS: “Pois, grande demais. Mas era coisa que se visse. De causar inveja.”

SB: “Deixemos estas trocas de mimos. E se fossemos fazer as malas? Estou morto por passear”.

GS: “Ah! Tens razão! Finalmente o cruzeiro à volta do mundo! Bem merecido, depois de tantas labutas e canseiras. Malásia, Singapura, Ilhas Caimão, Virgens Britânicas… E o que mais se verá… Fantástico e divertido!”.

GS e SB (em uníssono, a cantar): “Juntos somos invencíveis. Adoram-nos. Mas agora estamos excitadíssimos. Vamos ao jogo da caça ao tesouro”.

E repetem a cantilena.
Cai o pano
Palmas (tímidas), Tosses (nervosas), Olhares (esquivos)